Teorias Científicas e Critérios de Cientificidade

Teorias Científicas e Critérios de Cientificidade

Em prosseguimento aos Textos em Série, postados anteriormente, apresentamos os itens Teorias Científicas e Critérios de Cientificidade.

(…)

  1. Na comunidade científica, quando surge um novo paradigma, os adeptos de conceitos, normas e procedimentos assistem à emergência de novos conhecimentos. A substituição de um paradigma por outro, quase sempre caracteriza uma polêmica, quando não uma crise. Portanto, “A aquisição de um paradigma, e do tipo de pesquisa mais esotérico que ele permite, é um sinal de maturidade no desenvolvimento de qualquer campo científico que se queira considerar.” ( Thomas K. 1964:31)

As revoluções são consideradas os elementos desintegradores da tradição a que a atividade da ciência normal está ligada. À ciência, como ramo do conhecimento, compete investigar a origem e as fontes desse conhecimento, onde e como se processa. Jenner B. Bastos Filho (1998) propõe uma discussão acerca do universo científico – ciência, conhecimento científico, produção acadêmica – enquanto critica concepções radicais, tais como:

 

(…) está cientificamente provado de maneira irrefutável que…

Ou

(…) em que se atribui à ciência, o poder de delimitar a verdade e, aos cientistas, o poder inquestionável de decidir a verdade das coisas…

Buscamos, nos enunciados dos filósofos clássicos, dos empiristas ingleses e dos racionalistas continentais, critérios de identificação para generalizar sobre o que poderia ser considerado ciência e conhecimento científico.

Em Platão, a Episteme corresponde ao conhecimento verdadeiro, não contingente. O conhecimento científico é certo e universal. Distingue-se de opinião, doxa, conjuntura.

De acordo com Gaston Bachelard (1972, apud SANTOS, 1989: 31), (…) a ciência se opõe absolutamente à opinião. Em ciência, nada é dado, tudo se constrói. O senso comum, o conhecimento vulgar, a sociedade espontânea, a experiência imediata, tudo são opiniões, formas de conhecimento falso com que é preciso romper para que se torne possível o conhecimento científico racional e válido.

O Critério de Significação ou Critério de Significado proposto por Rudolf Carnap (1891-1970) pretende uma demarcação entre o conhecimento científico – o que faz sentido – e a metafísica que não faz sentido.

Karl Popper (1998) enfatiza sua crítica a este critério e considera a metafísica plena de significado, atribuindo importância ao papel dos mitos na construção da teorias científicas. Para esse autor, afastar as barreiras que separam a ciência da especulação da metafísica, não proporciona adequado critério de demarcação e propõe então o Critério de Refutabilidade e o Critério de Falseabilidade segundo o qual, para que uma teoria possa ser considerada científica é necessário que suas assertivas sejam refutáveis. Portanto, uma teoria que não admite refutação não pode ser considerada científica, visto que não pode ser contradita.

Para explicar melhor este critério é necessário reportar-se a XenófanesTudo são conjecturas – e aos empiristas ingleses que consideram os sentidos a fonte de todo e qualquer conhecimento: nada existe no intelecto que não tenha passado pelos sentidos. De acordo com tal critério, a teoria teria como método a indução, sendo o conhecimento formalizado por experiências singulares.

Edgar Morin (1996) analisa o Critério de Refutabilidade proposto por K. Popper, argumentando que a visão desse cientista em relação à evolução da ciência remete-se a uma seleção natural em que o fato de uma teoria existir por algum tempo não significa que seja verdadeira, mas por se adaptar bem ao estado contemporâneo do conhecimento. Este autor considera que a contribuição decisiva de K. Popper consiste em evidenciar “o fato surpreendente de que, ao contrário do que se pensava, a cientificidade não se define pela certeza e sim pela incerteza.”. (MORIN, 1996, p:23)

K. Popper não abandonaria a racionalidade, já que acredita na razão negativa – a ciência progride por refutação de erros – introduzindo o papel do positivo-negativo, uma ideia hegeliana, não obstante a sua recusa em relação à filosofia de Marx e Hegel. (MORIN. 1996)

Conforme os filósofos racionalistas Descartes, Leibniz, Spinoza, a fonte de conhecimento consiste na intuição intelectual das ideias claras e distintas. Somente através do espírito universal a verdade poderá ser conhecida. Com a inferência do espírito, as verdades poderiam ser demonstradas, admitindo-se, portanto, a dedução como método científico.

Todavia, os racionalistas admitem o papel dos sentidos, sem os quais o conhecimento não se manifestaria. Pode-se constatar, das generalizações de empiristas ingleses, com métodos indutivos e, de racionalistas continentais, com métodos dedutivos, que ambas as correntes de pensamento contemplam o conhecimento científico como verdadeiro, consubstanciando-se todos essencialistas.

Nicolau Copérnico (1473-1543) é considerado um pensador de transição, bastante ligado às ideias de Aristóteles, tendo sido necessário mais de um século para que a sua hipótese viesse a se realizar, o que se tornou possível com as contribuições de Galileu, Kepler e Newton, no século XVII. Para Copérnico, as nossas ideias deveriam regular-se pelo mundo e os nossos conhecimentos pelos objetos.

A Revolução Copernicana

Conforme Nicola Abbagnano – Dicionário de Filosofia: Costuma-se chamar por esse nome a mudança de perspectiva realizada por Kant, o qual, em vez de supor que as estruturas mentais do homem se modelem sobre a natureza, supôs que a ordem da natureza se modela sobre as estruturas mentais. (…) A Revolução Copernicana deveria consistir em reconhecer que o fim da filosofia não é ser ou descrever a totalidade do real, mas outro, mais modesto, de pesquisar os valores que podem ser assegurados e divididos por todos, porque vinculados aos fundamentos da vida social. (ABBAGNANO. 1982:192-4)

Immanuel Kant (1724-1804) subverteu essa concepção argumentando que o mundo é que deve ser adaptado às nossas ideias e os objetos regulados pelos nossos conhecimentos. Nicola Abbagnano (1982) admite parcialmente a Revolução Copernicana, na metafísica, quando afirma não haver garantia de que o conhecimento, a priori, seja verdadeiro pois, é passível de modificação pelo processo evolucionista do conhecimento.

É inegável a importância da contribuição de Nicolau Copérnico que, somente em 1493 apresentou sua hipótese, que seria corroborada por Johannes Keppler com suas célebres leis empíricas do movimento planetário. Entretanto, deve-se a Galileu Galilei (1564-1641) a verdadeira mudança na opinião científica. Com seus extraordinários insigths e descobertas, Galileu é que evidenciou a supremacia da hipótese de Copérnico como teoria científica válida, superando assim, a velha cosmologia.

A Teoria Gravitacional de Newton era considerada verdadeira, pois mostrava poder resolver problemas da época, tais como “unificar em um só esquema a teoria de Galileu, válida para pequenas alturas da superfície terrestre, com a teoria de Kepler, válida para os céus. (BASTOS FILHO. 1980:31)

Com a Teoria Geral da Relatividade, Einstein evidencia que os postulados da teoria newtoniana não é uma possibilidade única.

A Revolução científica do século XVII esfacelou uma constituição estética que ordenava os espaços e hierarquizava o “mundo superior dos céus” e o “mundo inferior e incompatível da Terra.

Galileu geometriza o universo igualando todos os espaços. Com a descoberta da via Láctea, contrapôs a um mundo fechado e finito, a ideia de infinitude do céu. Rompe-se não somente a ordem do cosmo, mas também a ordem social e econômica instituída, com a emergência de um novo homem que procura se firmar no prestígio de seu esforço e de sua capacidade de trabalho.

Com o início do modo capitalista de produzir, ocorre a superação dos valores medievais. Com a expressão da nova burguesia, as descobertas científicas e os inventos industriais e tecnológicos, a ciência não mais servia à teologia; não mais um saber contemplativo, formal e finalista, mas definitivamente ligado à técnica, sobretudo para servir à nova classe emergente.

Artigos Relacionados

Deixe seu comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado. Os campos obrigatórios são marcados com *

Cancelar resposta