Quarentena, resgatando memórias

Quarentena, resgatando memórias

Enquanto permanecemos em Isolamento Social, num contexto de pandemia com tantas perdas,
e tantas vidas que se foram vitimadas pelo Coronavírus. Dramas e traumas ressurgem do
imaginário coletivo.
De nossa memória pessoal surgem cenários ainda não esquecidos. Uma volta ao passado e
às cenas da nossa infância, adolescência e juventude. Enquanto permanecemos socialmente
“isolados”, sentimentos e emoções afloram em nosso pensamento. Não raramente, logo nos
primeiros dias, invade-nos um estranhamento. Todavia, as lembranças vão surgindo quando
estamos realmente sozinhos. Nesses momentos, a inquietude vai buscando e encontrando
substitutos: diversão e ocupação se permeiam nos espaços. Qualquer sensação, um aroma, um
sonho durante o sono rarefeito, trazem de volta “…uma paisagem quase esquecida”.
Resgatamos lembranças singelas, plenas de significado. Lembrei-me de Chiquinha Gonzaga,
nascida Francisca Edwiges Neves Gonzaga, em 17 de outubro de 1847, no Rio de Janeiro,
e falecida em 28 de fevereiro de 1935. Portanto, neste ano de 2020 se contam 85 anos
de seu falecimento. Popularmente conhecida como Chiquinha Gonzaga, pela inteligência e
musicalidade, raro talento como compositora, instrumentista, tendo sido a primeira maestrina
brasileira a reger uma orquestra polifônica, justamente O Guarani, a ópera, de autoria do
maestro brasileiro Carlos Gomes.
Então, em meio aos acontecimentos e às estatísticas, a morbidez das narrativas pela imprensa
não nos permitie qualquer evasão. Procuramos alternativas, eis que Cenas de Família nos vem
à mente e, de pronto, o resgate da infância e da adolescência. A memória afetiva me leva a
momentos de serena expressão…
Em noites enluaradas, todo o clarão da Lua Branca e prateada ilumina a minha sacada até a sala
de estar e, por fim, ilumina a minha alma. Aí me permito simplesmente ao encantamento …muito
bem sentada no chão frio de cimento batido, vermelho, brilhante de tão limpo e, quase
imóvel admiro a minha mãe, ora à mesa, traçando flores em arabescos, micro espaços
abertos em rechilieu que ganhariam forma em finos bordados. Como se não bastasse todo
o encantamento da artista em sua criação, sempre se fazia acompanhar de sua doce e suave
voz a cantarolar ‘…oh Lua Branca de fulgores e encantos, se é verdade que ao amor tu dás
abrigo…’ percebendo-se que não estava sozinha, logo virava-se para mim e me via a ouvi-la,
então falava: “Lua Branca, de Chiquinha Gonzaga…”. Puro encantamento, lembrança a (re)
lembrar.
Desde então me apaixonei por Chiquinha Gonzaga e por tudo que lhe diz respeito. Nesse
contexto de tantas vidas perdidas, desperto do sonho prateado, sigo à procura das inúmeras
peças que compõem o cancioneiro de Chiquinha Gonzaga, entre tantas ainda desconhecidas
para mim e encontro, o ‘Requiem’ que ora resgato e dedico para seguir a caminhada sem cortejo
das Vítimas do Coronavírus. Que sigam e possam descansar em Paz.

Paz

Paz

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1 Comentário

  • Lidervannya
    7 de julho de 2020, 02:07

    Como sempre ótimos textos e imagens!!
    Pena que estejam postando vocês não estejam postando com mais frequência.
    Voltem a postar com mais frequência.
    Fiquem com Deus. Parabéns pelo conteúdo de texto e gráfico, vocês sabem usar as imagens para traduzir os sentimentos dos textos.

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