Memórias… Lembranças em dias de solidão

Memórias… Lembranças em dias de solidão

Já faz algum tempo, tento escrever um texto que venha alegrar-me o espírito. O tempo não tem ajudado. Estamos no período chuvoso, aqui no Nordeste, com chuvas constantes, e regularmente, quase todos os dias.

A minha mãe gostava muito de passear, visitar sua prima e conversar com suas vizinhas, mas ficava triste, calada e muito quieta em tempos chuvosos. Como minha mãe, também fico triste, nesses tempos cinzentos. Ultimamente, tento driblar o tempo, nesses dias sem cor. Comprei um livro de ilustrações e desenhos (desses que vêm com os motivos prontos p’ra colorir) e duas caixas de lápis de cor. Minha irmã me deu essa ideia e mais: (…) só funciona com fundo musical… então ligo um pequeno radio retrô, recém-comprado on-line (boa invenção). Ponho-me a colorir. Mas, como ia dizendo, sou como minha mãe. Como tenho lembrado de sua fisionomia e de seu jeito de ser. Pareço fisionomicamente com meu pai, mas sou sentimental, igualzinha a ela, sem o seu talento, evidentemente: ela desenhava, pintava, bordava e muito mais… fazia o que queria…  Ah! Muito importante! Assim como os enxovais de bebês, ela costurava também as nossas roupas: para o dia-a-dia, domingueiras e roupas de festas. Naqueles tempos, naquela cidadezinha, não havia roupas prontas (um tal de prêt-à- porter) e roupas para crianças, então, nem em sonhos (mas já existia máquina de costura…). Nossa mãe desenhava, cortava, costurava, pintava ou bordava nossas roupas, de acordo com a idade ou com o tamanho de cada um de nós, com a nossa fase em crescimento.

Aqui, uma pausa para os enxovais de bebês e uma grande família, aparentemente abastada. Nossos pais tiveram que trabalhar muito para nos manter. Em meio a tantas passagens e recordações, não faltaram os tempos difíceis. Mas, voltemos aos nossos sonhos dourados e aos desejos de nossa mãe ”esperando nenê”, os mesmos desejos de muitas outras futuras mamães da cidade. Ah! As futuras mamães estreantes, todas desejavam encomendar enxovais de bebês, como roupinhas de bonecas em tamanho maior. As futuras mamães desejavam, enxovais-de-bebês iguaizinhos aos de nossos futuros irmãos, com casaquinhos, lençóis em pares (um para o pequeno colchão – lençóis de bercinhos – e outro, um pouco menor para cobrir o bebê, ao deitá-lo), um mimo, objeto de desejo, para ver, é claro! Muito antes de suas núpcias, aquelas noivas tinham algo em comum com a nossa mãe. Os Enxovais de Noiva. Esses, também sob encomenda, já lhes haviam proporcionado imensa alegria: um Cama e Mesa completo (colcha de cama casal, completamente branco, no mais puro linho ou percal e, acompanhando, um ou dois pares de fronhas; uma toalha de mesa – tamanho normal, quadrada ou redonda e, eventualmente, uma outra, tamanho grande, retangular, para banquetes…). Todas as peças eram primorosamente bordadas, somente uma artista seria capaz e paciente para produzir peças belíssimas e tão delicados bordados.

Então, enquanto bebês (enxovaizinhos completos, azuis ou na cor rosa); já crianças e mais crescidas, adereços (bicos e rendas de almofada, entremeios para a passagem de fitilhos de veludo colorido, laços de fitas largas e resistentes, em seda ou organdi transparente, mantinham bem presas as nossas tranças. Adolescentes? Um sonho, um luxo! Nossa mãe tinha mesmo mãos de fada e… uma máquina de costura.  A nossa mãe não confeccionava Vestidos de Noiva, modista ela não era, mas às vezes se aventurava e fazia vestidos lindos, muito copiados, diga-se de passagem. Eram realmente belos e originais, os nossos vestidos novos, que usávamos pela primeira vez, nas festas religiosas e paroquiais, com parques de diversão, roda gigante e carrossel. Lembranças de nossos percursos passados podem surgir, inesperadamente ou não.  Recordações à parte, todos os dias, após o café da manhã, dou um giro pela “casa”, procuro o que fazer. Quase sempre, termino as “obrigações” da manhã com uma leitura. É sempre muito reconfortante ler pela manhã, estirada num sofá confortável.

A noite estava fria, amanheceu chovendo fininho. Acordei tarde, por volta de nove e meia. Após o café da manhã, antes mesmo de deixar a mesa, olho lateralmente e vejo já o dia claro. Muito bom. Levanto-me animada e sigo para abrir as janelas. Lá fora, já em altura, brilha o sol, em plena órbita, passeando sobre nós, amarelo brilhante, vibrante, irradiante, espalhando generosamente, calor e energia, luz e cor para nossa alegria. Meu coração bate forte.

Silenciosamente, agradeço em oração.

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